
Depoimento de Sérgio Abreu sobre a violonista e professora Adolfina Raitzin de Távora, que faleceu dia 17-08-2011, em Buenos Aires:
http://abmeseduca.com/?p=2590
E o depoimento de Sérgio Assad, que transcrevo aqui:
"Fiquei muito comovido com a beleza do texto escrito pelo Sérgio Abreu
sobre a nossa querida amiga e maestra Monina Távora. Dona Monina, como a
chamávamos, sempre teve um especial apreço e admiração pelo Sérgio,
destacando-o como um grande ser humano; um dos melhores exemplos de
simplicidade, generosidade e dedicação ao próximo que ela conhecia. Esta
admiração foi e é sem nenhuma dúvida verdadeira e recíproca.
Meu
irmão Odair e eu, ouvimos falar de D. Monina por primeira vez em 1967
quando vivíamos em Ribeirão Preto no interior de São Paulo. O nosso pai,
Sr. Jorge Assad, buscava um orientador musical do mais alto nível para
meu irmão e eu. Ele ouviu com muita atenção o relato feito pelo
jornalista Oromar Terra, que em visita a Ribeirão Preto, enalteceu ao
máximo as qualidades de ensinamento ministradas por D. Monina. Oromar
nos fez ouvir então, por primeira vez, os violões dos irmãos Sergio e
Eduardo Abreu que seriam o maior destaque dentre os alunos dela. Ficamos
encantados!!! Era a primeira vez que ouvíamos algo tão bonito em termos
de som e perfeição saindo daquele instrumento tão familiar que já
tocávamos embora de uma forma ainda rudimentar. O nosso pai não teve
dúvidas e acabou nos levando ao Rio de Janeiro para que a conhecêssemos.
Este encontro deu-se ainda no ano de 67 e selou definitivamente o nosso
futuro, apontando para uma nova direção e nos dando uma nova
perspectiva de vida.
Nós havíamos aprendido a tocar o repertório
dos chorões, que era a paixão de nosso pai, um exímio bandolinista na
tradicional linhagem de Jacob Bittencourt. Provavelmente teríamos
seguido diletantemente pelos caminhos da música tradicional e hoje
tocaríamos música amadoristicamente fazendo eco ao que fez nosso pai por
toda sua vida. Graças as habilidades de D. Monina e a paixão e
tenacidade de Seu Jorge, que mudou a família toda para o Rio para que
pudéssemos estudar com ela, hoje temos uma carreira internacional no
violão clássico. Soa um tanto quanto irônico dizer que os dois, o Seu
Jorge e D. Monina, faleceram há poucos meses de diferença um do outro.
Nosso pai também se foi em maio deste ano nos deixando muita, mas muita
saudade!
D. Monina era uma pessoa fascinante e para dois meninos
interioranos que nunca haviam tido acesso a pessoas daquele nível era um
grande enigma. Ela era muito cultivada e podia dissertar horas sobre
assuntos variados nos descortinando todo um mundo novo ao qual ainda não
tínhamos acesso.
Nossas
aulas eram geralmente aos domingos pela tarde. Começavam por volta das
duas horas e seguiam pelo menos até as seis. O mais difícil na fase
inicial foi começar a montar um programa que cobrisse os vários estilos
musicais: Renascença, Barroco, Clássico, e Moderno. Como tínhamos
experiência zero dado que o máximo que havíamos feito em termos de
violão “clássico” era um pouco do repertório Latino Americano de Barrios
e Fleury, tudo o que ela dizia era novidade e de um valor imensurável.
Monina
era muito rigorosa quanto ao tempo e a atenção que deveria ser dedicada
ao estudo do Instrumento. Ela falava em termos de 8 horas diárias
embora soubesse ser impossível pra nós tamanha dedicação, afinal éramos
estudantes secundários e tínhamos outros afazeres além da música.
Estudávamos talvez umas 4 horas diárias e ela podia, a cada nova aula,
detectar sem problema se havíamos realmente trabalhado ou não.
Monina
não era analítica na sua abordagem do discurso musical preferindo
trabalhar sobre a intuição. Ela tinha uma capacidade impar em ir buscar
dentro do aluno a força intuitiva de cada um. Uma das suas máximas
seria: “Olhem com atenção as obras as quais vocês se propõe a
interpretar. Analisem com cuidado mas no momento de tocá-las sigam
sempre a intuição . A análise é bastante importante mas pode dar margem a
erros enquanto a intuição é infalível”. Este tópico e muito polêmico
mas eu segui com muito rigor este ensinamento e o utilizo com bastante
êxito com os meus alunos no Conservatório de Música de San Francisco
onde dou aulas nos dias de hoje.
Sim! D Monina era polêmica! Ela
tinha a visão romântica de que o artista verdadeiro tinha que passar
necessidades para evoluir, dedicar-se total e exclusivamente a sua arte e
não fazer nenhum tipo de concessão. Nós tivemos problemas com ela
relacionados a este último pensamento. Nós que vínhamos do interior de
São Paulo e estávamos habituados à linguagem da música popular acabamos
por entrar numa zona de atrito com ela e fomos proibidos de tocar o
nosso velho repertório que incluía entre outros João Pernambuco,
Dilermando Reis, Pixinguinha, e Jacob. Nós realmente abandonamos a
prática daquele repertorio por algum tempo mas era muito difícil
abandonar a própria origem e seguimos buscando alternativas que acabamos
por encontrar em Gnatalli e Piazzolla. Estes dois eram considerados por
ela muito bons apesar de serem compositores de musica popular, segundo
ela.
Trabalhamos com D. Monina durante 7 anos, de 1969 ate 1976
quando ela decidiu voltar a Argentina e os estudos foram interrompidos.
Aqueles anos foram anos super férteis onde nos pudemos acumular um
grande conhecimento que nos serve como guia até os dias de hoje. Dentre
as inúmeras coisas aprendidas com ela eu destacaria 8 pontos:
1) Completa dedicação ao instrumento com horas e horas de estudo diário.
2) Paciência metódica e perseverança com ênfase na repetição de passagens pré determinadas a um ritmo muito lento.
3) Incansável curiosidade e vontade de aprender coisas novas.
4)
A utilização da voz como guia insubstituível no processo de
aprendizagem. (O canto seria a ponte mais imediata entre a análise e a
intuição.)
5) Evoluir através da intuição, acreditando nela, alimentando-a e nutrindo-se em retorno.
6) Desenvolver a capacidade interpretativa praticando determinados trechos com diferentes enfoques de expressão.
7)
Compreender bem a diferença entre estilos musicais. (Para isto se
servia de muitas imagens se referindo aos costumes das diferentes épocas
e países. Referia-se também à forma de se vestir, ao comportamento
social de cada época, e ao papel que tinha a música nestes contextos.)
8)
Flexibilidade extrema no que tange a agógica e a dinâmica musical.
(Neste ponto ela era realmente extraordinária, podendo demonstrar
facilmente como o bom emprego da dinâmica altera completamente uma
interpretação. As vezes nos surpreendia com pedidos que eram o oposto do
que havia sido determinado na semana anterior.)
Ter
o aval de D. Monina no meio musical carioca nos idos de 70 era uma
benção. O seu nome e a qualidade de seu trabalho era amplamente
reconhecido e abria qualquer porta de teatro musical no Rio. Assim foi
que debutamos no Rio logo em 1972 no “foyer” do Teatro Municipal e demos
início a nossa carreira. Muitos outros alunos passaram por D. Monina
que transformou-se numa figura mítica naqueles anos. Outros duos
formados por irmãos também passaram por ela. Me lembro pelo menos de
dois: os irmãos Montevecchi de São Paulo e os irmãos Casares de Buenos
Aires. Nem todos os seus alunos prosseguiram a carreira musical mas
tiveram a sorte de poder conviver com um dos personagens musicais
ligados ao violão mais intensos e interessantes que já passaram pelo
Brasil.
Tenho um imenso orgulho em ter sido seu aluno e me sinto um
felizardo em poder me contar entre um pequeno grupo de privilegiados que
caminharam ao seu lado durante a sua estadia no Brasil.
Com muitas saudades!!!"
- Sergio Assad
http://www.violao.org/topic/11924-adolfina-raitzin-de-tavora-dona-monina/